Escleroterapia: o que eu vejo no consultório — e o que você precisa saber antes de tratar os vasinhos
Ao longo de todos esses anos de consultório, uma queixa se repete com uma frequência que nunca me surpreende — mas que ainda me chama atenção pela forma como chega.
A paciente entra, senta, e antes de qualquer coisa diz: “Eu sei que é só estética, mas os vasinhos estão me incomodando muito.”
Esse “só estética” me diz muito. Diz que ela já minimizou o próprio incômodo antes mesmo de me contar o que sente. Que provavelmente já deixou de usar uma roupa, de ir a uma praia, de se sentir à vontade no próprio corpo — e que chegou até aqui achando que estava exagerando.
Não está.
Os vasinhos nas pernas — tecnicamente chamados de telangiectasias ou varizes reticulares de pequeno calibre — são uma condição vascular real. Podem ser acompanhados de dor, sensação de peso, cansaço e queimação ao final do dia. E têm tratamento eficaz, seguro e minimamente invasivo dentro da Dermatologia: a escleroterapia.
Neste artigo, vou explicar como o procedimento funciona, quais são as técnicas disponíveis, o que esperar antes e depois — e por que a escolha de quem realiza esse procedimento importa mais do que parece.
O que é a escleroterapia — e como ela age no vasinho
A escleroterapia é um procedimento em que injetamos, diretamente no interior do vasinho doente, uma substância chamada agente esclerosante.
Essa substância provoca uma irritação controlada na parede interna do vaso — o endotélio. Essa irritação leva ao fechamento progressivo do vasinho, que para de receber sangue e é gradualmente reabsorvido pelo próprio organismo.
O resultado é duplo: melhora visual da pele e redução da sobrecarga circulatória local.
Não é magia. É fisiologia aplicada com precisão.
O número de sessões varia de acordo com a extensão e o calibre dos vasos, e os resultados são progressivos — o que significa que a avaliação de retorno, geralmente entre 6 e 8 semanas após cada sessão, faz parte do protocolo, não é sinal de que algo deu errado.

A dermatologista Prof. Dra. Marcia Ferraz Nogueira demonstra a precisão necessária na aplicação da escleroterapia no vasinho (telangiectasia).
Glicose ou espuma? A diferença que define o resultado
Uma das perguntas que mais recebo antes do procedimento é: “Qual substância você vai usar?”
A resposta depende de um fator clínico objetivo: o calibre e a profundidade dos vasinhos a serem tratados. Não existe técnica universalmente superior — existe a técnica certa para aquele vaso, naquele paciente.
Escleroterapia com glicose hipertônica
A solução de glicose hipertônica é uma das substâncias mais utilizadas no Brasil para o tratamento de vasinhos finos e superficiais.
É indicada para telangiectasias — os vasinhos avermelhados ou arroxeados, de pequeno calibre, localizados próximos à superfície da pele. Por ser uma substância naturalmente presente no organismo, o risco de reação alérgica é muito baixo. O desconforto durante a aplicação é passageiro e tolerável.
Escleroterapia com espuma (polidocanol)
Nesta técnica, um medicamento líquido — geralmente o polidocanol — é transformado em espuma ao ser misturado com um gás em proporção controlada.
A espuma tem uma propriedade que o líquido não tem: ela se expande dentro do vasinho, empurra o sangue e preenche toda a extensão do vaso tratado com muito mais eficiência — sendo especialmente útil em telangiectasias de calibre um pouco maior ou em regiões de acesso mais difícil.
A escolha entre as duas técnicas — ou a combinação delas — é feita na consulta de avaliação, depois de examinar cada caso individualmente.

A queixa frequente no consultório dermatológico: vasinhos superficiais nas pernas que geram desconforto estético e, às vezes, físico.
Antes do procedimento: o que preparar
O resultado da escleroterapia depende tanto da técnica quanto dos cuidados que antecedem a sessão. Estas são as orientações que dou a todas as minhas pacientes:
Pele limpa: não aplique cremes hidratantes nas pernas nas 24 horas anteriores à sessão.
Exposição solar: evite sol prolongado nas pernas por pelo menos 10 dias antes do procedimento. A pele exposta ao sol recente responde de forma diferente ao agente esclerosante.
Roupa: venha com roupas largas e confortáveis. Você sairá com pequenos curativos nas áreas tratadas.
Depois do procedimento: como proteger o resultado
O pós-procedimento é tão importante quanto a sessão em si. Estas são as orientações que garantem o melhor resultado:
Primeiras 24 horas: evite ficar em pé por longos períodos e não realize exercícios de alta intensidade — musculação pesada e corrida. Atividades leves podem ser mantidas.
Curativos: retire apenas 24 horas após a sessão. Esse também é o momento ideal para o primeiro banho.
Sol: evite exposição solar nas áreas tratadas por pelo menos duas semanas. O sol sobre a pele em processo de cicatrização aumenta o risco de hipercromia — manchas escuras que podem ser persistentes.

Após a sessão de escleroterapia, pequenos curativos adesivos são aplicados nos pontos tratados e devem ser mantidos por 24 horas.
Por que o procedimento exige médico — e por que isso importa
Preciso ser direta neste ponto.
A escleroterapia é um ato médico privativo. Não por burocracia regulatória — mas porque envolve conhecimento profundo de anatomia vascular, farmacologia, fisiologia circulatória e manejo de complicações.
Quando realizada por profissionais sem formação médica, os riscos são reais e podem ser graves: hipercromia persistente, hematomas extensos, reações alérgicas, flebite e formação de escaras de difícil resolução.
Não estou dizendo isso para assustar. Estou dizendo porque vejo, no consultório, pacientes que chegam com complicações de procedimentos realizados em ambientes inadequados — e que precisam de tratamento muito mais complexo do que o original.
A segurança do procedimento não está apenas na substância injetada. Está em quem avalia, decide, executa e sabe o que fazer se algo não correr como esperado.
O que esperar dos resultados
Os resultados da escleroterapia são progressivos e individuais.
Nas primeiras semanas após a sessão, é normal que a área tratada apresente vermelhidão, pequenos hematomas ou escurecimento temporário — são sinais de que o processo de fechamento vascular está ocorrendo.
A melhora visual se consolida ao longo de 6 a 8 semanas. Nesse momento, faço a reavaliação para verificar quais vasinhos responderam completamente e quais precisam de sessões complementares.
Não existe promessa de resultado em sessão única. Existe um protocolo individualizado — construído a partir do exame clínico de cada paciente.
É importante esclarecer: a escleroterapia trata vasinhos — telangiectasias e varizes reticulares de pequeno calibre. Varizes tronculares de maior diâmetro são condição vascular que exige avaliação e tratamento pelo cirurgião vascular. Na dúvida sobre qual especialidade procurar, a consulta dermatológica de avaliação já orienta o caminho correto.
Uma última coisa antes de agendar
Se você chegou até aqui, provavelmente já está considerando o tratamento. Antes de agendar, quero que você saiba o seguinte: A consulta de avaliação não é uma formalidade. É onde examino suas pernas, entendo o histórico vascular, identifico os vasinhos que precisam de atenção e defino o protocolo mais adequado para o seu caso.
Cada perna conta uma história diferente. E o plano de tratamento precisa respeitar essa história.
Se você está pronta para dar esse passo, agende sua consulta.
Prof. Dra. Marcia Ferraz Nogueira é dermatologista com mais de 25 anos de atuação clínica e docente universitária. Atende em São Paulo, nos bairros do Morumbi e Jardim Paulistano.





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